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sexta-feira, 25 de abril de 2008

As Portas que Abril abriu…

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.
Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.
Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.
E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.
Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.

Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!
É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

Ary dos Santos
Lisboa, Julho-Agosto de 1975

quarta-feira, 16 de abril de 2008

MINHA FONTE DE INSPIRAÇÃO

Melhor que o horizonte
É ter-te a ti.
Nem com mil palavras
Descrevo o que significas p'ra mim.

Ontem olhei para o céu
E vi um cometa a passar
Linda era aquela luz
Como o brilho do teu olhar.

Fiquei a pensar no teu rosto
Como era puro quando sorria
Dava tudo por um beijo
Nos teus lábios, depois partia.

Podes estar longe fisicamente
Mas, estás dentro do meu coração
são muitos os quilómetros que nos separam,
Este amor, não é em vão.

Rui Pedro

terça-feira, 15 de abril de 2008

AMOR E CLAUSURA

Passámos os dias
Iguais a tantos outros
Por detrás destes muros
Sem pensamentos futuros

Agarrados à solidão
Nestas celas encarcerados
Corações dilacerados
Pelas amarguras da vida

Corações à chave fechados
Na hora do adormecer
As lágrimas a correr
Pela face da saudade

Vivendo longe da sociedade
Que nos repugna
e nos ausenta
nos corrói,
a dor aumenta,
Faz chorar o coração

Lágrimas de sangue e agonia
Nesta cela gélida e fria
Revoltando a alma
Fazendo gritar o chão.

Testemunha do poder
Do isolamento da sociedade
Nesta louca ansiedade,
Chamada liberdade.

Paulo Santos

terça-feira, 18 de março de 2008



TESTAMENTO

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

Alda Lara

quadro de pintor angolano desconhecido

sábado, 8 de março de 2008

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida
a minha face?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Sophia de Mello Breyner Adresen

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

CIDADE

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 21 de março de 2007

dia mundial da poesia



Esta a fermosa terra situada
Numa encosta fresca e deleitosa,
A uma rocha íngreme encostada
Donde o castelo a mostra mais fermosa.
De dois alegres rios rodeada,
E de fresca verdura graciosa,
Vales ao rededor verdes, sombrios,
Que cortam mansamente os brandos rios.

Francisco Rodrigues Lobo
O mais importante na vida
É ser-se criador - criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.






Se tudo quanto disseste
- E foram quatro palavras!

Foi tudo quanto sentiste,
Então...,
Porque estranhas
Que eu fique triste?

Podias ter tido pena -
Desta ilusão
Que era a maior e a mais bela
De quantas pude sentir!
Sim, podias ter mentido,
E era tão fácil mentir!

Tentei beijar-te - perdoa;
Arranjavas um pretexto:
"Agora, não..., outro dia!..."
E eu ficava contente!,
- Se eras tu,
A tua boca, os teus olhos,
- Se eras tu quem me mentia!

António Botto
in "Canções"

terça-feira, 13 de março de 2007

do meu primeiro livro de poesia

CERTEZA

Onde os sonhos de glória e de riqueza
Cujo clarão me entontecia?
Se lhes levanto a mão, a mão descai-me fria...
Não tenho fome, já, nem tenho mesa.

Por Ti perdi o gosto de vencer
(Nenhum triunfo me consola)
E da contínua dor fiz meu maior prazer,
E a quem me fez sofrer apanho a esmola.

Onde o ferver do sangue, o riso aberto,
A boca rubra, o olhar em chamas?
Por Ti cobri de cinza o coração deserto,
E sobre o chão queimado fiz a cama.

Onde aquele calor da carne viva,
Do coração vibrante e humano?
Por Ti desse absoluto amor dona-cativa,
Minh'alma em tudo mais só viu engano.

Por Ti desiludi quem me queria
Como no mundo nos queremos,
Não tendo mais que dar que esta alma abstracta, - fria
A tudo que não sejam Teus extremos.

Por Ti tudo perdi, desiludido
De quanto é belo mas não Teu,
Até perder, por fim, todo o comum sentido
Do que antes distinguia em terra ou céu.

Que terra, inferno, céu, me és Tu, mais nada!
Por Ti chamei o mesmo a tudo,
E a terra que nos pés trazia inda pegada,
A esfarelei com o meu desprezo mudo.

Sim, meu só mundo és Tu! Tu o meu céu!
Tu meu inferno, se te ausentas!
E como, já, poder distinguir Tu ou eu,
Se eu não sou eu quando me não sustentas?

Por Ti vivo no tempo a eternidade,
Por Ti morri antes de morto!
E houveras Tu, Amor, de não ser realidade,
Mar em que me eu afogo e único porto?

E houvera de ser eu tal dependência
Dum sonho meu sem baluarte?
Ah, se fora só minha essa Tua existência,
Como pudera eu não acusar-Te?!

José Régio
in "Mas Deus é Grande"

sábado, 10 de março de 2007

som da tinta

Há muito tempo que queria ir ao Som da Tinta, uma livraria em Ourém que promove eventos culturais, se assim lhe posso chamar. Hoje Manuel Freire falava de António Gedeão.

A caminho de Ourém tentei fotografar o castelo, mas com o automóvel em movimento... esta ficou razoável... não é o castelo... fica para a próxima

a livraria é fácil, fácil de encontrar... pertinho desta estátua, "ao povo de ourém"...


Manuel Freire falou de António Gedeão (Rómulo de Carvalho), declamou alguns poemas, cantou outros...
O espaço é simpático, mas hoje tornou-se pequeno. Será sempre assim? Muita gente em pé... ai as minhas costas...

na fotografia Manuel Freire e Sérgio Ribeiro

Pedra Filosofal


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho
é tela é cor é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.


Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


António Gedeão
Movimento Perpétuo - 1956

o jardim

finalmente acabaram as obras no Jardim de Leiria, também chamado Jardim Luís de Camões e aqui está ele...



mudaram-no de sítio (talvez por causa do reumatismo...)

Luís de Camões (1525 (?) - 1580)
estátua assinada por F.Marques - 1980

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.



Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões

quarta-feira, 7 de março de 2007

adeus

Disse adeus ao velho emprego, e mudei para outras bandas...

Na despedida também me ofereceram um poema, o resto que estava escrito, é só meu :)

O que rói
corrói
e dói

Por dentro, chôro
por fora, riso.
Fundo, a mágoa
nos lábios, o sorriso

Ora o sorriso,
ora o rictus

Que o difícil lutar
de hoje
emprenhe o duro construir
do amanhã

Não espero juízes
nem sentenças
Não procuro réus
nem quesitos
espero futuro
e nele ser
Procuro luta
e nela estar

Ser,
do futuro
o seixo do degrau-hoje
da infinda escalada

Sérgio Ribeiro

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Sou como sou...

Sou como sou e pareço
(às vezes) melhor do que isso,
pois, na voz que em mim ressoa,
sou a gaivota que voa
presa à vela do feitiço.

Invento no meu silêncio
- que é do tamanho do mundo!,
E quando estou indeciso
eu falo, porque é preciso
fingir que não vou ao fundo.

Sou actor de profissão;
tanjo esta viola estranha
Em que o harpejo é o personagem
que conquistou a viagem
dum mar que não acompanha.

Dou-me com seres decentes
E indecentes ( murmuram!)...
Mas que importa ao marinheiro
Se sabe que, com dinheiro,
todos eles se misturam...!

Compro e vendo o olhar do sonho
Por amor do realejo
e penso no que seria
se, naquela fantasia,
fosse aquele o meu desejo.

Mas chego, todas as noites,
preso à eterna solução
de arrumar, no desencanto,
a minha alma a um canto
do quarto da solidão.

Deus, em certa hora, um dia,
despir-me-á do que visto!
Mas até lá dou e peço...

Sou como sou e pareço
(às vezes) pior do que isto.

Vasco de Lima Couto

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

aos oitenta e cinco anos

A 85 ANS

A quatre-vingt-cinq ans, on peut encor aimer.
Aimer faire des vers, aimer les reciter.

A quatre-vingt-cinq ans, on peut encor aimer.
Aimer l'odeur des roses et celle des oeillets.

A quatre-vingt-cinq ans, on peut encor aimer.
Aimer le goût des frites et du saumon fumé.

A quatre-vingt-cinq ans, on peut encor aimer!
... On peut encor aimer
... Aimer.

Léon Dupilet

domingo, 18 de fevereiro de 2007

domingo gordo

Hoje é domingo gordo, como o nome indica é dia de comer muito e muita diversão. Mas apetece-me falar da fome.

LA GRASSE MATINÉE

Il est terrible
le petit bruit de l'oeuf dur cassé sur un comptoir d'étain
il est terrible ce bruit
quand il remue dans la mémoire de l'homme qui a faim
elle est terrible aussi la tête de l'homme
la tête de l'homme qui a faim
quand il se regarde à six heures du matin
dans le glace du grand magasin
une tête couleur de poussière
ce n'est pas sa tête pourtant qu'il regarde
dans la vitrine de chez Potin
il s'en fout de sa tête l'homme
il n'y pense pas
il songe
il imagine une autre tête
une tête de veau par exemple
avec une sauce de vinaigre
ou une tête de n'importe quoi qui se mange
et il remue doucement la mâchoire
doucement
et il grince des dents doucement
car le monde se paye sa tête
et il ne peut rien contre de monde
et il compte sur ses doigts un deux trois
un deus trois
cela fait trois jours qu'il n'a pas mangé
et il a beau se répéter depuis trois jours
Ça ne peu pas durer
ça dure
trois jours
trois nuits
sans manger
et derrière ces vitres
ces pâtés ces bouteilles ces conserves
poissons morts protégés par les boîtes
boîtes protégées par les vitres
vitres protégées par les flics
flics protégés par la crainte
que de barricades pour six malheureuses sardines...
Un peu plus loin le bristo
café-crème et croissants chauds
l'homme titube
et dans l'intérieur de sa tête
un brouillard de mots
un brouillard de mots
sardines à manger
oeuf dur café-crème
café arrosé rhum
café-crème
café-crème
café-crime arrosé sang!...
Un homme très estimé dans son quartier
a été égorgé en plein jour
l'assassin le vagabond lui a volé
deux francs
soit un café arrosé
zéro francs soixante-dix
deux tartines beurrées
et vingt-cinq centimes pour de pourboire du garçon.
Il est terrible
le petit bruit de l'oeuf dur cassé sur un comptoir d'etain
is est terrible ce bruit
quand il remue dans la mémoire de l'homme qui a faim.

Jacques Prévert

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Um Canto de Vida e de Morte



Porto 26/11/1923 - Lisboa 10/03/1980

Poeta, declamador, actor, encenador...

Toda a gente conhece os seus poemas, muitos deles musicados... Pomba Branca, Noite, Zé Brasileiro Português de Braga, Preciso de Espaço...


OUTUBRO DE 68

Que Povo é este, que Povo,
Que compra os rios que tem?
Que vende a terra pequena
e não sabe de onde vem?

Que Povo é este, que Povo,
que respira sem garganta?
Que chora porque tem frio
mas não tem sol quando canta?

Que Povo é este, que Povo,
que é Poeta e se alimenta
de tanta maré vazia
no mar que ele próprio inventa?

Que Povo é este, que Povo,
que tenta um sonho esmagado?
... É o Povo de onde venho
todo por dentro amarrado!

Vasco de Lima Couto